Dicas Importantes ao decidir pelo Treinamento e Desenvolvimento de Pessoas

Treinamento e Desenvolvimento de Pessoas

Armadilhas encontram-se em qualquer lugar.

É comum ouvirmos, geralmente a boca pequena, que o mercado de treinamentos no Brasil, ao longo dos anos, foi se tornando numa enorme colcha de retalhos. Sem muita forma e também sem filtros, gestando uma enormidade de proposições para capacitação e desenvolvimento de pessoas aonde, por mais que se pesquise, não há segurança de que aquilo que está sendo contratado tem realmente um alicerce legitimado por conhecimento ou, ainda, se não passa de abordagem pseudo-científica, para não dizer de cunho filosófico pessoal.

É quase que andar por um campo minado.

Se esta for a sua impressão, é legitima e correta. Afinal a atividade do treinamento empresarial não é uma atividade regulamentada por autarquias ou órgãos específicos, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por exemplo.

Diante desta liberdade de controles e filtros, é natural que surjam inúmeras proposições de vários matizes diferentes e, nem todas com algum embasamento fático, científico ou pelo menos consolidado pelo senso comum que preza por um padrão de qualidade mínimo. Não precisa ir muito longe para se ter uma amostra clara deste fenômeno cultural típico do liberalismo econômico. Peguemos como exemplo o Coaching.

 

Coaching – Um Exemplo Interessante

 

Basicamente Coaching é uma técnica (ou técnicas) de aceleração de resultados elaboradas por Tim Galwey, capitão da “Harvard University Tennis Team” e até 1971 professor de tênis profissional na Califórnia. Um auto-didata, adepto da psicologia aplicada e que se tornou escritor bem sucedido.

O trabalho de Galwey é bem bacana e vale a pena conhecê-lo, mas como nosso objetivo aqui não é contar a história de Galwey e nem tecer elogios ou críticas sobre suas proposições relativas ao Coaching, seguiremos adiante.

Rapidamente o Coaching ganhou simpatia pelo ambiente empresarial da época e se tornou uma febre nos EUA ao final dos anos 1970. Não é necessário lhe informar que aquilo que se torna febre nos EUA, tem enormes chances de se tornar uma febre também no resto do mundo ocidental e algum tempo depois no resto do mundo todo. Foi exatamente isto o que aconteceu e o Coaching ganha o mundo empresarial se alimentando de uma enorme demanda (ou febre) corporativa.

Acontece que o Coaching também não é uma atividade regulamentada e, as técnicas apresentadas por Galwey, são técnicas abertas, ou sujeitas a interpretações diversas.

O que acontece com uma atividade de livre iniciativa, não regulamentada e que tem uma demanda colossal num ambiente competitivo e em economias liberais, ou de mercado?

 

Se torna isto ai que você vê na rede em uma rápida pesquisa e em qualquer hora do dia ou da noite, encontrará coisas do tipo:

 

Coaching de : Casamento, Emagrecimento, Espiritual, De Carreira, Familiar, De Vendas, De Equipe, Motivacional, Self Coaching, etc… por aí vai. Pasme mas é verdade, existe até o Coaching Quântico (até a mecânica quântica entrou na “refestelança na taboca” do Coaching).

O fato é que uma atividade não regulamentada e que aponta para resultados rápidos pode gestar de tudo, não há filtros e não há controle de qualidade. Uma suposta técnica (ou técnicas) que sugere levá-lo do ponto A (estado atual) ao ponto B (estado desejado) só pode fazer sucesso num ambiente de muitos desejos e precariedades diversas.

Claro, o Coaching trabalha exatamente aquilo que você não controla ou tem mínimo controle: o seu desejo e suas precariedades. E desejos e precariedades é o que não falta num mundo aonde você é estimulado a tê-los a todo momento e em grande escala. Sem a necessidade do mercado não há demanda e sem demanda não há mercado, portanto nada melhor do que criar necessidades (demandas) para que a venda das soluções seja possível, assim o mercado é garantido. Depois disto basta saber explorá-lo.

Não estamos aqui criticando o trabalho de Galwey, pelo contrário, o seu trabalho inicial foi muito bom, entretanto sua popularização desmesurada e sem filtros acabou por distorcer conceitos iniciais e gestou tudo quanto são fórmulas para resultados rápidos que se possa imaginar. É o que o mercado quer: resultados rápidos. E aquilo que o mercado quer não faltarão agentes (com escrúpulos ou sem) dispostos a vender.

Se quiser conhecer um pouco de coaching na fonte, comece lendo o livro “The Inner Game of Tennis” de 1974 e verá que vale a pena. O que estamos colocando em evidência é que muita coisa mudou em suas proposições iniciais e foi se transformando, ao longo do tempo e influenciadas por um mercado que se apropriou de uma boa idéia, numa fórmula para se ganhar dinheiro e não muito mais do que isto.

Tenha certeza que na base da filantropia, o coaching não teria se tornado na febre que se tornou. A mão invisível fêz do coaching o que bem entendeu para ganhar algum dinheiro. Sem filtros e sem controles, tudo é possível.

Tudo aquilo que se populariza ao longo do tempo sofre suas deformações. É inevitável e é assim que funciona o ser humano. Porquê poderíamos achar que com o Coaching ou os Treinamentos para Empresas seria diferente?

É natural que isto aconteça ao longo do tempo, se não fosse natural não o observaríamos em diversas épocas de nosso desenvolvimento. Se pedíssemos aos gregos clássicos que viessem aos nossos dias e observassem no que se tornaram as democracias modernas muitos deles ficariam arrepiados.

Se fosse possível fazer o mesmo com Jesus Cristo e ele observasse no que se tornou o Cristianismo, possivelmente sua reação seria a mesma. Se pedirmos para um monge do Tibet participar de uma sessão de Mind-Fulness, ele saíria no primeiro vôo de volta para o Tibet e nunca mais retornaria.

Num mundo líquido e sem filtros as coisas funcionam assim. Conceitos originais (fundamentos) vão se deformando e tudo vai ficando meio pasteurizado mesmo e ao sabor do público que o procura. É a solução “a la carte” pra tudo. É a mão invisível do mercado, diria Adam Smith.

Numa oportunidade vimos uma propaganda na rede (se pesquisar irá achar fácil) mais ou menos assim : Nossa Escola – 11.000 Coachs formados em 10 anos.

Hummmmmm. Significa 1.100 Coachs por ano.

Hummmmmm. Significa 91 Coachs por mês.

Hummmmmm. Ou a Estrutura desta escola é gigantesca e forma uns 3.700 Coachs a cada 3 anos (tempo razoávelmente mínimo para tal formação dentro de um escopo de conhecimento sério) ou esta escola está formando deslumbrados no atacado. Esta reflexão e suas conclusões deixamos para você.

Fomos pesquisar o perfil desta escola e percebemos que estão tão focados na ignorância do público ao qual se destinam, que não levaram em conta que a matemática de primeiro grau contradiz o que eles mostram de estrutura e resultados. Tem um público precário, mal informado e garantido.

O pior mesmo é que depoimentos do tipo “Como o Coaching mudou minha vida” não faltam, claro todos eles previamente planejados.

 

É Nossa Realidade.

 

Muito bem voltando a observação inicial que o mercado de treinamentos no Brasil ao longo dos anos foi se tornando numa enorme colcha de retalhos sem muita forma e também sem filtros, temos de aceitá-la como verdade, não porquê queremos ou gostamos que assim seja, mas porquê são fatos facilmente observáveis e bem diante de nossos olhos.

Outro ponto importante é que isto não é um fenômeno brasileiro. É um fenômeno humano. Ao realizar uma breve pesquisa nos mercados dos EUA, Europa, Ásia e Austrália verá o mesmo.

Isto não significa que todas as proposições são sem forma ou são ruins. Significa que você está se movimentando num ambiente que requer alguns cuidados para que não escolha por proposições deformadas. Há excelentes profissionais de coaching (ou coachs) no mercado, sérios e que poderão lhe ajudar de fato. Também há uma miríade de deslumbrados que acabam por fazer o quê querem com o Coaching (ou com o que lhes dá melhores lucros). Uma atividade não regulamentada e num mercado aberto (livre de filtros) dá nisto mesmo.

Coaching, originalmente não é ruim, entretanto escolha muito bem e fuja de fórmulas no atacado. Não pense também que é somente o coaching que sofre deste problema. O Treinamento Empresarial sofre do mesmo problema. Terapias alternativas sofrem o mesmo problema. Religiões sofrem o mesmo problema. Política sofre o mesmo problema. Filosofia sofre o mesmo problema e por aí vai.

Somos assim, somos humanos (como dizia Nietzsche : demasiadamente humanos).

 

Como escolher um Treinamento Empresarial?

 

Nossas dicas podem parecer mais do mesmo, entretanto não se esqueça de que fazer o óbvio, porém bem feito, pode ser um diferencial importante na hora de suas escolhas. É um erro muito comum se procurar inovações quando não se faz o óbvio bem feito e terceirizamos as nossas responsabilidades.

Nosso conselho: Não invente a roda logo de cara, faça primeiramente o óbvio bem feito, depois disto procure por inovações. Só quem tem a ganhar é você.

 

O primeira dica é “Use o Bom Senso”.

 

O filtro de suas observações pode ser um instrumento mais eficaz do que imagina ao se escolher um programa de treinamento e desenvolvimento de pessoas. Nossa sugestão é que, antes de qualquer passo, tome cuidado com seus desejos e suas precariedades, elas lhe farão enxergar somente o que deseja e poderá comprometer seu “filtro intelectual” de qualidade. Muitas organizações, não muito sérias, exploram bem estas precariedades.

Tenha um roteiro claro para lidar com estas situações. As perguntas importantes são:

1 – O que de conhecimento de fato irei adquirir e que não possuo hoje?

2 – Este conhecimento é relevante para o que faço ou pretendo fazer?

3 – Os conteúdos programáticos seguem fontes reveladas, reconhecidas e aferíveis pelos trainees?

4 – Este conhecimento é replicável? Há repetibilidade possível para o que está proposto?

5 – Segue um conceito e uma construção lógica?

6 – Podemos sabatinar os treinadores (ou coachs)?

7 – O material do treinamento pode ser apresentado para nós antecipadamente para que possamos verificar sua evolução e sintonia com o que pretendemos de educação corporativa?

Estas 7, e simples, perguntas já são suficientes para eliminar, de suas opções de escolha, uma grande parte de proposições rasas e pouco embasadas para o seu treinamento empresarial.

 

O segunda dica é “Faça uma Pesquisa Prévia”.

 

Evite entrar as escuras num desenvolvimento temático qualquer, não importa sobre o que seja. Se não possuir um repertório prévio, mesmo que seja conceitual, em torno do tema de seu interesse, corre o risco de se ver inerte (ou não ter contra-pontos) diante do material que será apresentado. Se tornará refém apenas de uma boa oratória que poderá não ter consistência, ou origens conhecidas, entretanto que poderá ser convincente.

Uma pesquisa prévia e com fontes consolidadas (podem ser até acadêmicas) lhe dará subsídios, não para realizar pré-julgamentos definitivos, mas para perceber se o arcabouço de conhecimentos apresentados (ou o lastro do treinamento) é sólido e se segue uma linha lógica de desenvolvimento.

Esta pesquisa é mais importante do que imagina, e muitas organizações ainda não o fazem. Suas chances de se frustrar numa ação de educação corporativa sem esta manobra estratégica é enorme. Invista um pouco de tempo em pesquisa, você só ganhará com isto.

 

O terceira dica é “Evite o critério de notoriedade por exposição”.

 

Escolher um treinamento por sua notoriedade numérica pode ser um enorme erro.

Critérios do tipo vou escolher este porquê já venderam 10.000 treinamentos empresariais ou formaram 11.000 coachs. É uma armadilha cognitiva muito comum.

É o critério de escolha por quantidade e não por qualidade que está atrás desta armadilha, mesmo que você não a perceba. Nem todo deputado é o melhor deputado porque é o mais votado. Nem todo automóvel é o melhor automóvel porque vendeu mais. Nem todo produto é o melhor produto porque sai em grande escala. Nem todo ator é o melhor ator porque aparece em todas as novelas.

Aquelas empresas que tem notoriedade por exposição, simplesmente são as que mais gastam com marketing (principalmente se for na rede), nada mais do que isto. Já vimos budgets com até 25 % das receitas líquidas direcionadas para marketing. Estar super-exposto não representa, e nem nunca representou padrão, de qualidade,. Representa apenas que se quer vender muito e nada mais.

Além do fato que há empresas de treinamento sérias e que não tem a intenção de realizar eventos ou treinamentos no atacado pela simples questão da manutenção de um padrão de qualidade que as garantiram uma diferenciação em um mercado longe do assédio dos prestidigitadores de plantão. Estas organizações não tem a mínima intenção de vender seus produtos numa feira livre de cursos e treinamentos para empresas. Aqueles que procuram treinamentos sem critérios claros e, minimamente seletivos, simplesmente não conseguem detectá-las facilmente.

 

Cuidado com os Famosos Depoimentos.

 

Outro risco da notoriedade por exposição são os famosos depoimentos.

Já viu alguém colocar um depoimento em uma campanha de marketing empresarial de algum cliente que disse algo do tipo: Gostei mas poderia ser um pouco melhor!! Gostei mas poderíamos ter nos aprofundado um pouco mais neste ou naquele tema!!

É óbvio que você ainda não viu.  Este padrão de transparência ainda não chegou nas campanhas de marketing.

Os depoimentos são sempre, e somente, formatados da mesma maneira. Não significa que são fraudes (alguns até são, mas em sua maioria não cremos que sejam), mas são direcionamentos, são controlados por quem as publicam.

A coisa funciona assim: Vamos entrevistar todos aqueles que treinamos e selecionar os que mais gostaram e teceram elogios. Os que não gostaram muito, ou tem alguma crítica a ser realizada, descartamos logo de saída. Perguntaremos somente aos que mais gostaram se nos dariam um depoimento para publicação em nossa campanha de marketing. E pronto, simples assim.

Não houve nenhuma fraude, somente uma ajeitada na situação para que os elogios fossem garantidos e pudessem ser publicados. Todos foram sinceros, o filtro foi o marqueteiro e a campanha de marketing.

É o princípio político funcionando a pleno vapor nas campanhas de marketing. A icônica frase de Rubens Ricupero (então ministro da fazenda em 01/09/1994) ainda ecoa nas mentes dos bons observadores: “Eu não tenho escrúpulos ,  O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”. Posicionamentos deste tipo não são crimes mas acabam com a credibilidade de qualquer um, tanto que o ministro caiu.

Não é nenhum crime, mas uma campanha de marketing que segue este conceito (quase todas) lhe mostra somente a opnião de quem gostou e esconde a opnião de quem não gostou. Não há muita preocupação com a ética ou transparência numa campanha de marketing, não é a isto a que ela se destina.

O marketing é assim mesmo, sua preocupação não está direcionada para a legitimidade, mas para o sucesso, mesmo que para isto tenhamos de dar uma ajeitada na situação. Portanto o critério dos depoimentos não é dos melhores mesmo.

Não significa que todas as agências de marketing sejam picaretas, no mercado (este ente subjetivo) há de tudo e há as agências sérias.

O seu bom senso e sua pesquisa prévia valerá mais do que qualquer depoimento, não tenha dúvidas disto.

 

Não deixe de fazer um Bom Briefing.

 

Nunca abra mão de uma boa entrevista de Briefing, pode ser presencial ou on-Line. Entretanto saiba como se preparar para o Briefing.

Qual é o principal objetivo de sua reunião de Briefing? Avaliar a qualidade do treinamento empresarial baseado em critérios externos ou avaliar se atende a sua exigência por conhecimento e desenvolvimento?

Se sua escolha for a primeira, poderá acertar num treinamento de elevado padrão comercial, estético e de qualidade consolidada, entretanto que não atenda a sua exigência por desenvolvimento e conhecimento. Comprou uma Ferrari quando de fato precisava de um caminhão basculante. Mesmo que acerte na qualidade do treinamento (há o risco de não acertar) pode errar em sua aplicabilidade em relação ao momento que a organização está vivendo.

O segundo critério é o mais acertado. Aonde precisamos nos desenvolver? Quais conhecimentos precisamos? O que falta nas mentes e procedimentos de nossos colaboradores? Os treinadores entenderam o que queremos? Podem nos atender? Se seu critério for este, pode até encomendar um treinamento para empresas não tão estético, entretanto acertará no atendimento da demanda fundamental que é a aquisição do conhecimento relevante ao negócio, isto é o que realmente fará a diferença na sua vida corporativa. O fator estético pode ser negociado separadamente e não deverá ser o foco inicial de uma reunião de Briefing, poderá ficar para o final como arremate.

Estas são as nossas dicas.

Tenha em mente que o mercado não vai mudar e será cada vêz mais livre e gestando de tudo, entretanto se adotar estas medidas e precauções, suas chances de contratar bons treinamentos empresariais aumentarão.

Bom trabalho a todos.

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